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Home > Artigos > Feminicídios em Nova Friburgo – RJ e a importância da Rede de Serviços Especializados para o seu enfrentamento
Resumo: O presente estudo estabelece um levantamento cronológico dos casos de feminicídios de mulheres no município de Nova Friburgo, Estado do Rio de Janeiro, desde a década de 1990 até o presente. O objetivo é analisar a correlação direta entre a presença — ou desarticulação — de políticas públicas especializadas de proteção à mulher e a flutuação dos índices de letalidade violenta contra o gênero feminino na região.
1. Introdução
A violência extrema praticada contra as mulheres culmina no feminicídio — a morte violenta motivada pela condição do sexo feminino, frequentemente está vinculada à violência doméstica e familiar ou à misoginia. No município de Nova Friburgo, localizado na Região Serrana do Rio de Janeiro, a historicidade dos casos reflete tanto a vulnerabilidade das vítimas quando de ausência de amparo estatal quanto à eficácia de redes de proteção integradas quando devidamente estruturadas.
2. Levantamento Histórico e Cronologia dos Casos
2.1. Década de 1990: Os casos dos “Irmãos Necrófilos e o “Maníaco do Parque de Nova Friburgo”.
Durante a década de 1990, a cidade foi impactada por uma série de assassinatos operados pelos “Irmãos Necrófilos!”  e assassinatos e desaparecimentos por um agressor em série.
Vítimas dos irmãos necrófilos (1991-1995):
  1. Eliana Macedo Xavier
  2. Norma Cláudia de Araújo
  3. Vera Lúcia Damasceno
  4. Odete de Carvalho Silva
  5. Íria Moraes Ornelas
  6. Maria Dorcileia Faltz
  7. Elizete Ferreira Lima
 
Vítimas do “Maníaco do Parque”
  1. Junho de 1994: Susiane Abreu Travassos (22 anos).
  2. Fevereiro de 1997: Mabiá da Silva (desaparecida no período),
  3. Cleide Carla Lima (16 anos),
  4. Sílvia Maria Lima Nicolau,
  5. Gilcimara de Oliveira
  6. Amanda Prosper da Silva.
  7. Abril de 1998:Fabiana Ferreira Rocha (16 anos).
2.2. Período de 2000 a 2009: O Impacto da Primeira REMUV
No início dos anos 2000, registrou-se o assassinato de:
  1. Maria Auxiliadora Siqueira (Dora Siqueira), em 2001
  2. Magda Grazielle Freitas Souza 12 anos (2002)
  3. Bárbara Carreiro, em (2002)
  4. Patrícia Rufino Reis Caristiato, 33 anos (2005)
 
O Marco da Proteção (2002–2008): Em 2001, iniciou-se no município o serviço telefônico “Disque Mulher” e a criação da REMUV (Rede de Atendimento às Mulheres Vítimas de Violência de Nova Friburgo), concebida por meio do Programa Cidadania, Direitos e Violência contra Mulheres da instituição Ser Mulher – sob coordenação de Laura Mury e assessoria de Conchita Pazo.
Com base nos dados tabulados pelo Disque Mulher, a gestão municipal da Prefeita Saudade Braga instituiu o Centro de Referência da Mulher de Nova Friburgo. Durante a atuação articulada da REMUV, o município registrou seis anos consecutivos com apenas uma vítima de feminicídio.
A subsequente desarticulação da REMUV em 2007 coincidiu com o retorno dos crimes fatais:
19 – Setembro de 2009: Juliana Barbosa Gonçalves (21 anos).
2.3. Período de 2010 a 2019: A Criação da DEAM
20 – Maio de 2010: Tatiane Ouverney Pereira (32 anos).
A Conquista da DEAM (2011): Após dez anos de mobilização contínua do Movimento de Mulheres local — protagonizado pelas ONGs Ser Mulher (2001–2006) e Tecle Mulher (2007–2011) por meio do “Projeto Abrindo Novos Caminhos para a Conquista dos Direitos das Mulheres”, com apoio da antiga Secretaria de Políticas para as Mulheres e atual Ministério das Mulheres— foi inaugurada a Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (DEAM Nova Friburgo), sob a titularidade da 1ª Delegada, Dra. Grace Arruda.
A presença do órgão policial inicialmente intimidou os crimes de feminicídios, no entanto a partir de 2016 continuaram a ser registrados ininterruptamente e com resquícios de alta crueldade.
21 – Dezembro de 2012: Raquel de Souza Bezerra (29 anos).
22 – Fevereiro de 2016: Ana Claudia da Rocha Correa Bongard (39 anos).
23 – Novembro de 2016: Dinah Viana Ferreira (40 anos).
24 – Janeiro de 2017: Oneia da Silva Nascimento (54 anos).
25- Outubro de 2019: Alessandra Vaz e
26- Daniela Mousinho, vítimas de incêndio criminoso provocado pelo ex-namorado de Alessandra.
2.4. Década de 2020: Recrudescimento e Novos Desafios
27 – Agosto de 2021: Nahaty Gomes de Mello (33 anos, gestante) e sua mãe,
28 – Rosimery Gomes da Cunha (67 anos), vitimadas a tiros pelo companheiro de Nahaty, em crime que também vitimou o pai de Nahaty, Wellington Braga Mello.
29 – Outubro de 2021: Lívia Verly (36 anos), friburguense assassinada em São Fidélis pelo ex-companheiro.
30 – Fevereiro de 2022: Marcelle Monteiro (36 anos).
31 – Setembro de 2023: Natali Xavier da Silva Soares.
32 – Abril de 2024: Karen Mancini (39 anos).
33 – Outubro de 2025: Rejane Passos e
34 – Maristela Emerique.
3. Discursão: A Reativação da REMUV-NF
Em novembro de 2025, a Secretaria Municipal da Mulher reativou formalmente a rede sob a denominação Rede Municipal de Atendimento às Mulheres Vítimas de Violência de Nova Friburgo – RJ (REMUV-NF), institucionalizando-a como política pública permanente do Município.
 Período
Status da Rede / Aparelhos de Proteção
Impacto na Incidência de Homicídios de Mulheres
1990–2001
Ausência de aparelhos especializados municipais
Alta incidência; crimes em série e impunidade histórica
2002–2008
Implementação do Disque Mulher, CREM e REMUV ativa
Registro de 1 feminicídio (*)
2009–2025
Desarticulação da REMUV original; instituição da DEAM (2011)
Reincidência e multiplicação das ocorrências de feminicídio
2025–Atual
Reativação da REMUV-NF como Política Pública do Município
Etapa atual de reorganização e monitoramento contínuo
4. Conclusão
A análise cronológica dos dados de Nova Friburgo evidencia que os feminicídios não constituem fatos isolados, mas o ponto culminante de um continuum de violências de gênero. A experiência histórica do município demonstra de forma empírica que a existência de uma rede intersetorial articulada (REMUV) — integrando os Centros de Referência de Mulher e da Assistência Social, Serviços e Programas de Saúde, Organismos da Segurança Pública de o Poder Judiciário, Conselhos da Mulher e Tutelar, Organismos da Sociedade Civil com atendimento especializado às mulheres vítimas de violência, entre outros — possui eficácia direta na interrupção do ciclo da violência e na prevenção do feminicídio.
A consolidação da REMUV-NF como política pública contínua apresenta-se como requisito indispensável para a preservação das vidas das mulheres no município.
(*) A Lei do Feminicídio  L13104 – Planalto –   define o assassinato de uma mulher cometido por razões da condição do sexo feminino, quando envolve violência doméstica e familiar ou menosprezo e discriminação contra a mulher. É classificado como crime hediondo.
A referida pesquisa envolve crimes cometidos dentro dessa natureza. Vale ressaltar ainda existem ocorrências de mulheres vítimas sem registros públicos detalhados sobre a autoria ou a elucidação dos seguintes assassinatos:
Camilla Novaes – (Camila Rimes Novaes foi assassinada em Nova Friburgo em agosto de 2007. Ela tinha 21 anos e foi uma das vítimas de um homicídio múltiplo (conhecido na época como a chacina do bairro Vale dos Pinheiros), no qual quatro jovens foram mortos a tiros dentro de uma residência por homens armados.
Marlene Fagundes Klein do Amaral – Não há informações públicas detalhadas e conclusivas disponíveis sobre a identificação e a autoria do assassinato de Marlene Fagundes Klein do Amaral.
Marcia Jacó – Não há registros públicos detalhados sobre a autoria ou a elucidação do assassinato de Márcia Jacó em Nova Friburgo.
Andrea Carla de Vasconcelos Moura – Não há registros públicos detalhados sobre a elucidação ou os desdobramentos judiciais do assassinato de Andreia Carla de Vasconcelos Moura em Nova Friburgo.
Fontes:
  • Pesquisas Primárias, Levantamentos e Acervo do Tecle Mulher e da ONG Ser Mulher
    1. Institucional:Dados e estudos produzidos diretamente pela instituição Tecle Mulher – Assessoria e Pesquisa no Âmbito dos Direitos da Mulher e pela antiga organização Ser Mulher.
    2. Atendimentos Históricos:Registros tabulados no serviço de atendimento telefônico “Disque Mulher” (iniciado em 2001) e nos projetos de extensão (“Projeto Abrindo Novos Caminhos para a Conquista dos Direitos das Mulheres”) da OSC Tecle Mulher.
  1. Dados Estatísticos Oficiais de Segurança Pública
    1. Instituto de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro (ISP-RJ):Dados e estatísticas oficiais sobre criminalidade, registros de ocorrências policiais de feminicídios, lesão corporal, tentativas de homicídio e violência doméstica registrados na comarca e município de Nova Friburgo.
    2. Secretaria de Estado de Polícia Civil do Rio de Janeiro (SEPOL-RJ) / 151ª DP (Nova Friburgo) / DEAM Nova Friburgo:Inquéritos, relatórios de apuração policial e registros de ocorrências da Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher de Nova Friburgo (criada em 2011) e da delegacia da região.
  2. Arquivos da Crônica Policial e Imprensa Regional
    1. Acervos Jornalísticos e Materiais de Imprensa Local/Estadual:Notícias, coberturas de cadernos policiais e reportagens históricas de jornais da região serrana e do Estado do Rio de Janeiro cobrindo os crimes desde a década de 1990 (incluindo o caso dos “Irmãos Necrófilos” em Junagardas/Sumidouro/Nova Friburgo e os homicídios urbanos ao longo das décadas).
  3. Legislação, Documentos Públicos e Políticas Municipais
    1. Legislação Federal:Código Penal Brasileiro (Lei do Feminicídio – Lei nº 13.104/2015 e atualizações do Pacote Antifeminicídio – Lei nº 14.994/2024) e Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006).
    2. Atos Normativos Municipais de Nova Friburgo:Registros e decretos oficiais de instituição e reativação da REMUV-NF (Rede Municipal de Atendimento às Mulheres Vítimas de Violência de Nova Friburgo) e criação do CREM (Centro de Referência da Mulher de Nova Friburgo).